quarta-feira, 4 de maio de 2011

O que é um PEIDO para quem está todo CAGADO?

A expressão do título é conhecida de todos, mas o texto que a originou é
menos. É uma obra de Luis Fernando Veríssimo sobre a obra veríssima que
ele fez numa viagem para Miami.



Aeroporto Santos Dumont, 15:30.
Senti um pequeno mal-estar causado por uma cólica intestinal, mas nada
que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para
chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de onde partiria o vôo
para Miami, resolvi segurar as pontas.
Afinal de contas são só uns 15 minutos de busão.

"Chegando lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta,
tranqüilo, o avião só sairía às 16:30".

Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei
consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria
um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto.

Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil falei:

"Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque
preciso largar um barro."

"Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a
força de vontade para trabalhar e segurei a onda."

O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu desespero, uma voz
disse pelo alto falante: "Senhoras e senhores, nossa viagem entre os
dois aeroportos levará em torno de 1hora, devido a obras na pista."

Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo. Fiz um esforço
hercúleo para segurar o trem merda que estava para chegar na estação
anus a qualquer momento.

Suava em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou
para tirar um sarro.

O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que
pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado.
17:30 (3 horas atrás)
Giselle
Tentava me distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um banheiro,
não com uma privada, mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo
que alguém poderia botar seu almoço nele. E o papel higiênico então:
branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti um volume almofadado
entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado, que
havia cagado.

Um cocô sólido e comprido daqueles que dão orgulho de pai ao seu autor.

Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los
a apreciar na privada.

Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal.

Mas sem dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo,
procurando um pouco de piedade, e confessei sério:

"Cara, caguei!"

Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a
relaxar, pois agora estava tudo sob controle.

"Que se dane, me limpo no aeroporto", pensei.

"Pior que isso não fico".

Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte. Arregalei os
olhos, segurei-me na cadeira mas não pude evitar, e sem muita cerimônia
ou anunciação, veio a segunda leva de merda.

Desta vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado,
borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas,
panturrilha, calças, meias e pés.

E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líqüida, das que queimam
o fiofó do freguês ao sair rumo a liberdade.
E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar. Afinal de
contas, o que era um peidinho para quem já estava todo cagado...
17:31 (3 horas atrás)
Giselle
Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez.
Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que
resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas
para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto.

Mas era tarde demais para tal artifício absorvente.
Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me
ajudar a limpar a sujeirada.

Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos curtinhos,
supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e
a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu pudesse trocar de
roupas.

Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei falta de papel
higiênico em todos os cinco.

Olhei para cima e blasfemei: "Agora chega, né?"

Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar
minha situação (que concluí como sendo o fundo do poço) e esperar pela
minha salvação, com roupas limpinhas e cheirosinhas e com ela uma lufada
de dignidade no meu dia.

Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o "check-in" e ia
correndo tentar segurar o vôo.
Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de mão e
saiu antes de qualquer protesto de minha parte. "Ele tinha despachado
a mala com roupas".
Na mala de mão só tinha um pulôver de gola "V".

A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus.
17:32 (3 horas atrás)
Giselle
Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de
algum modo, aproveitáveis.
Minha cueca, joguei no lixo. A camisa era história.
As calças estavam deploráveis e assim como minhas meias mudaram de cor
tingidas pela merda. Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1a 10.
Teria que improvisar.
A invenção é mãe da necessidade, então transformei uma simples
privada em uma magnífica máquina de lavar.
Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte
atingida na água. Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se
desprendeu. Estava pronto para embarcar.

Saí do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão de
embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado
avesso e molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o
pulôver gola "V", sem camisa.

Mas caminhava com a dignidade de um lorde.

Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando o "RAPAZ
QUE ESTAVA NO BANHEIRO" e atravessei todo o corredor até o meu assento,
ao lado do meu amigo que sorria.

A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo.

Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para disfarçar o
cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas
decidi não pedir:

"Nada, obrigado."

Eu só queria esquecer este dia de merda. Um dia de merda...

Luis Fernando Veríssimo (verídico).

Nenhum comentário:

Postar um comentário